domingo, 31 de julho de 2016

O Caso SECOM

Em 2015 vazou um documento interno da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom) do governo Dilma que fazia afirmações explícitas sobre à  necessidade de se reativar os robôs que atuaram na campanha de Dilma em 2014:

"A partir de novembro, as redes sociais pró-Dilma foram murchando até serem quase extintas. Principal vetor de propagação do projeto dilmista nas redes, o site Muda Mais acabou. Os robôs que atuaram na campanha foram desligados".


O documento reclama dos erros cometidos no relacionamento com a militância digital petista, reclamando da defesa feita pelo Ministério da Cultura de direitos autorais e da falta de apoio a blogues alinhados ao PT:

"O início do primeiro governo Dilma, no entanto, foi de rompimento com a militância digital. A defesa ferrenha dos direitos autorais pelo Ministério da Cultura e o fim do diálogo com os blogues pela Secom geraram um isolamento do governo federal com as redes que só foi plenamente reestabelecido durante a campanha eleitoral de 2014. Em 2015, o erro de 2011 foi repetido".

O documento atribuía a enorme queda de popularidade de Dilma, após ser reeleita em 2014, ao relaxamento das redes de comunicação associadas ao PT. Propunha uma ação coordenada com munição fornecida pelo governo, mas repercutida pelos "soldados" fora do governo. Como grupos fora do governo são citados o PT, o Instituto Lula, a bancada (de deputados e senadores) e blogueiros. O problema aqui não é a existência de grupos de apoio fora do governo, mas o fato do documento mostrar a atuação de um órgão do governo, ainda que seja a Secretaria de Comunicação, como coordenador da comunicação feita por grupos fora do governo. A seguir o trecho:

"As responsabilidades da comunicação oficial do governo federal e as do PT/Instituto Lula/bancada/blogueiros são distintas. As ações das páginas do governo e das forças políticas que apoiam Dilma precisam ser muito melhor coordenadas e com missões claras. É natural que o governo (este ou qualquer outro) tenha uma comunicação mais conservadora, centrada na divulgação de conteúdos e dados oficiais. A guerrilha política precisa ter munição vinda de dentro do governo, mas ser disparada por soldados fora dele".
O documento fala ainda do uso da publicidade oficial para alavancar a popularidade de Haddad. Novamente, demonstra o uso indevido de órgãos do governo para uma atividade partidária:

"A publicidade oficial em 2015 deve ser focada em São Paulo, reforçando as parcerias com a Prefeitura. Não há como recuperar a imagem do governo Dilma em São Paulo sem ajudar a levantar a popularidade do Haddad. Há uma relação direta entre um e outro".

O documento trazia ainda afirmações sobre suposta rede de robôs do PSDB, argumento para se reativar as redes de robôs do PT. Trazia inclusive uma estimativa dos valores que teriam sido gastos com pelo PSDB com as ações de informação que incluíam o uso de robôs e geração de conteúdo. Digo "suposta rede do PSDB" já que a menção a rede pode ser uma forma utilizada pelo autor do documento para valorizar a necessidade de reativação do uso de robôs pelo PT:

"O governo e o PT passaram a só falar para si mesmo. A tática do PSDB foi exatamente a oposta. Cerca de 50 robôs usados na campanha de Aécio continuaram a operar mesmo depois da derrota de outubro. Isso significou um fluxo contínuo de material anti-Dilma, alimentando os aecistas".

"Em estimativas iniciais, a manutenção dos robôs do PSDB, a geração de conteúdo nos sites pró-impeachment e o pagamento pelo envio de Whatsapp significaram um gasto de quase R$ 10 milhões entre novembro e março. Deu resultado."

"Simultaneamente, a partir do final de janeiro, as páginas mais radicais contra o governo passaram a trabalhar com invejável profissionalismo, com uso de robôs e redes de WhatsApp".

PS 1: É interessante relacionar esse documento à Reportagem investigativa da BBC NEWS BRASIL que desvendou "rede de fakes" que atuou na campanha de Dilma Roussef à presidência em 2010.

PS 2: As dificuldades de relacionamento da SECOM com a mídia digital petista podem ser relacionadas ao "Escândalo do Mensalão", que levaram à edição do uma lei regularizando a propaganda oficial do governo. Apesar da lei ser direcionada a agências de propaganda, ela pode ter tido reflexos nas dificuldades de direcionamento da propaganda para a militância digital petista. Vale ainda o registro de que um dos artigos da lei foi aproveitado, durante o julgado do Mensalão, como argumento para se tentar justificar a falta de devolução pela agência de publicidade de Marcos Valério ao Banco do Brasil do bônus de volume (BV), o que seria ilegal segundo o Tribunal de Contas da União,

Nenhum comentário :

Postar um comentário