Nos últimos dois meses eu li dois livros de Milan Kundera, "A Insustentável Leveza do Ser" e "O Livro do Riso e do Esquecimento". O primeiro é ótimo, o segundo tem altos e baixos. Milan Kundera era comunista, mas foi expulso duas vezes do partido, a segunda pela sua participação na Primavera de Praga, fato que motivou seu exílio e a proibição de seus livros na Checoslováquia.
"A Insustentável Leveza do Ser" me agrada por muitos motivos. É uma história de amor que tem como pano de fundo a Primavera de Praga. Ao longo do romance o autor fala sobre o amor, misturando com maestria temas filosóficos, políticos, literários e até belas metáforas musicais (Kundera era pianista). Como pano de fundo, o comunismo na Europa.
É interessante que alguns dos livros mais críticos ao comunismo e ao socialismo tenham sido escritos justamente por escritores comunistas e socialistas, decepcionados com os regimes totalitários que deles nasceram. O exemplo mais notáveis é o de de George Orwell, com seus livros "1984" e "A Revolução dos Bichos". Assim, faz mais sentido ver essas obras como críticas a regimes totalitários de forma geral do que a regimes específicos.
Uma das angústias que transparece em mais de um livro de Kundera é sua preocupação em tentar entender como foi possível que pessoas bem intencionadas acreditarem em um regime e uma ideologia até o ponto em que isso não era mais razoável. A mesma questão que aparece no livro "A Onda", sobre o Nazismo. Hoje no Brasil passamos por um momento semelhante, de polarização e desentendimentos.
Em um dos trechos mais interessantes de "A Insustentável Leveza do Ser" o narrador onisciente (Kundera?) e o protagonista Tomas refletem sobre essas questões. Tomas não se interessa por política, mas decide escrever um artigo para uma revista sobre esse tema, que angustia a alma checa. O artigo fará com que ele seja perseguido pelo regime comunista, da mesma forma que Kundera foi na vida real. Vejam esse belo trecho a seguir:
Em um dos trechos mais interessantes de "A Insustentável Leveza do Ser" o narrador onisciente (Kundera?) e o protagonista Tomas refletem sobre essas questões. Tomas não se interessa por política, mas decide escrever um artigo para uma revista sobre esse tema, que angustia a alma checa. O artigo fará com que ele seja perseguido pelo regime comunista, da mesma forma que Kundera foi na vida real. Vejam esse belo trecho a seguir:
"Quem pensa que os regimes comunistas da Europa Central são exclusivamente obra de criminosos deixa na sombra uma verdade fundamental: é que os regimes comunistas não foram edificados por criminosos, mas por entusiastas, convencidos de que tinham descoberto a única via possível para o paraíso. E defendiam essa via com unhas e dentes, chegando inclusivamente a mandar matar muito boa gente por causa disso. Mais tarde, tomou-se claro como a luz do dia que o paraíso não existia e, portanto, que os entusiastas eram assassinos. Então todos caíram em cima dos comunistas: eles é que eram responsáveis pela desgraça do país (que se encontrava pobre e arruinado), pela perda da independência nacional (o país tinha caído sob a alçada dos russos), pelos homicídios judiciais!
Os acusados respondiam: não sabíamos! Fomos enganados! Acreditávamos! Somos inocentes do fundo do coração!
O debate resumia-se, portanto, a uma questão: os comunistas não saberiam mesmo? Ou estavam só a fingir que não sabiam de nada? Tomas ia seguindo o debate (como outros dez milhões de checos), convencido que tinha forçosamente de haver comunistas ao corrente de alguma coisa (apesar de tudo, sempre deviam ter ouvido falar dos horrores que se tinham produzido e continuavam a produzir-se na Rússia pós-revolucionária). Mas também achava provável que a grande maioria não estivesse realmente ao corrente de nada.
E pensava que a pergunta que devia ser feita não era: afinal, os comunistas sabiam ou não? Mas: alguém pode estar inocente só por não saber? Um imbecil sentado num trono pode ser desculpado de tudo só pelo fato de ser imbecil?
Admitamos que o procurador checo, que no início dos anos cinquenta pedia a pena de morte para um inocente, tenha sido de fato enganado pela polícia secreta russa e pelo Governo do seu país. Mas agora que toda a gente sabia que as acusações eram absurdas e que os supliciados estavam inocentes, como é que exatamente o mesmo procurador podia defender a brancura da sua alma e bater com a mão no peito, protestando: eu tenho a consciência limpa, eu não sabia, eu não acreditava! Não era exatamente no seu 'Eu não sabia! Eu não acreditava!' que residia a sua culpa irreparável?
Então, Tomas lembrou-se da história de Édipo. Édipo não sabia que dormia com a própria mãe, mas, no entanto, quando compreendeu o que lhe tinha acontecido, não se sentiu inocente. Não pôde suportar o espetáculo da desgraça que causara com a sua ignorância, vazou os olhos e, cego para todo o sempre, deixou Tebas.
Tomas ouvia os comunistas a defender aos berros a brancura das suas almas e pensava: por causa da vossa inconsciência, talvez este país tenha ficado privado de liberdade por vários séculos e ainda se põem a berrar que estão inocentes? Como é que ainda podem olhar para aquilo que vos rodeia? Como é que não ficam apavorados? Ainda são capazes de ver? Se ainda tivessem olhos, deviam mas era vazá-los e sair de Tebas!"

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