sexta-feira, 27 de abril de 2018

"Seminário dos ratos" de Lygia e as Eleições do Brasil de 2002

"Foi a última coisa que viu, porque nesse instante a casa foi sacudida nos seus alicerces. As luzes se apagaram. Então, deu-se a invasão, espessa como se um saco de pedras borrachosas tivesse sido despejado em cima do telhado e agora saltasse por todos os lados numa treva dura de músculos, guinchos e centenas de olhos luzindo negríssimos. Quando a primeira dentada lhe arrancou um pedaço da calça, ele correu sobre o chão enovelado, entrou na cozinha com os ratos despencando na sua cabeça e abriu a geladeira. Arrancou as prateleiras que foi encontrando na escuridão, jogou a lataria para o ar, esgrimou com uma garrafa contra dois olhinhos que já corriam no vasilhame de verduras, expulsou-os e num salto, pulou lá dentro. Fechou a porta, mas deixou o dedo na fresta, que a porta não batesse. Quando sentiu a primeira agulhada na ponta do dedo que ficou de fora, substituiu o dedo pela gravata."
Seminário dos Ratos, Lygia Fagundes Telles

Em 2002 a campanha presidencial de Lula lançava o mote "Xó Corrupção", idealizado por Duda Mendonça, marqueteiro do PT. Um de seus vídeos mais marcantes era intitulado "Ratos" e lembrava o conto de Lygia, "Seminário de Ratos", de 1977:




Hoje não podemos rever esse vídeo sem refletir sobre as ironias reveladas pelo passar do tempo.

Durante o escândalo do Mensalão, o marqueteiro Duda Mendonça revelaria que seu pagamento por idealizar essa campanha se deu via Caixa 2, em conta sua na Suíça

Mais recentemente, graças à Lavajato, ficamos sabendo, via colaboração premiada de Emílio Odebrecht, dono da empreiteira Odebrecht, que a campanha de 2002, assim como todas de Lula desde sua primeira campanha eleitoral, contra Collor, em 1989, foram sempre financiadas e apoiadas de forma oculta pela Odebrecht (Emílio: "Fomos com ele o tempo todo"). 

A Odebrecht, inclusive, pasmem, ajudou na elaboração da famosa "Carta ao Povo Brasileiro".

O apoio de Emílio a Lula se iniciaria após uma reunião de mais de 9 horas em 1985, durante a famosa greve do Polo Petroquímico de Camaçari, na casa de Mário Covas. Sim, Mário Covas, do PSDB, que, segundo Emílio, tinha com ele uma "relação de confiança", ajudou que essa relação de confiança se transferisse para Lula.

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