Em um momento em que se especula se um ex-assessor da família Bolsonaro coletava dinheiro de outros assessores para repassar a quem os empregava, é interessante relembrarmos escândalos desse tipo, que se repetem no Brasil, infelizmente, sem punição dos culpados.
Como no Brasil nada se cria, tudo se copia, até os nomes dos escândalos são iguais: dois deles ficaram conhecidos como "Escândalo dos Gafanhotos". O mais famoso deles envolveu o então governador de Roraima, Neudo Campos, que na época era filiado ao PT. O segundo foi investigado por um promotor em início de carreira, que depois se tornaria famoso, Deltan Dallagnol.
Os escândalos até agora não deram em nada e o dinheiro não foi recuperado, apesar das provas parecerem robustas. Tal fato contribui para que escândalos similares se repitam. Nas palavras de Deltan:
"Diante desse quadro, em que deputados estaduais e funcionários públicos culpados de desvio de dinheiro não sofreram qualquer punição, não causa surpresa que, em 2010, um novo escândalo tenha vindo à tona no Paraná: a repetição – ou continuidade – do esquema de funcionários fantasmas, que chegou a desviar um valor estimado em mais de 100 milhões de reais. Esse escândalo foi apelidado de caso dos “Diários Secretos” porque as contratações dos fantasmas eram formalizadas em edições extraordinárias de diários oficiais mantidas ocultas."
Aliás, a edição de atos secretos também se repete no Brasil, conforme vimos no chamado "Escândalo dos Atos Secretos". Faltam nomes no Brasil para diferenciar os diversos escândalos.
O primeiro "Escândalo dos Gafanhotos"
Conhecido também como "Máfia dos Gafanhotos", o escândalo, segundo o MP e PF, consistia na utilização de funcionários fantasmas do órgãos do estado de Roraima para desviar dinheiro:
"De acordo com as descobertas, a partir de 1998, um grupo liderado pelo então governador de Roraima Neudo Campos passou a incluir nomes de funcionários fantasmas nas folhas de pagamento de órgãos do estado, indicados por aliados políticos. Depois, o grupo usava procurações falsas para sacar o salário e o titular do cargo muitas vezes não recebia nada. O dinheiro então era contabilizado e os políticos responsáveis pela indicação dos trabalhadores fantasmas recebiam cotas negociadas pessoalmente com Campos. Os fantasmas ficaram conhecidos como “gafanhotos” em alusão à deterioração da folha de pagamento de Roraima, que passou a ser corroída pela corrupção."
Apesar das provas parecerem robustas, Incrivelmente, devido à lentidão da justiça, o escândalo até hoje não deu em nada e Neudo Campos continua sua carreira política, veja aqui.
Os gafanhotos que se deram bem
O segundo "Escândalo dos Gafanhotos" é contado por Deltan em seu livro "A Luta Contra a Corrupção", no capítulo "Os gafanhotos que se deram bem".
Ele foi investigado por Deltan no início de sua carreira, antes que ele passasse a atuar no "Caso Banestado". Apesar das provas parecerem robustas, o caso caminha para a prescrição:
Não demorou muito tempo para que o meu plano de contribuir para a justiça entrasse em choque com uma dura realidade. Quando eu tinha 25 anos e apenas dois de experiência profissional, um promotor de Justiça de Curitiba, também jovem, mas com uma década a mais de experiência,
bateu à minha porta:
– Deltan, estamos com um grande caso, mas enfrentando dificuldades. Começamos a investigar um esquema de funcionários fantasmas na Assembleia Legislativa do Paraná, mas não teremos condições de tocar essa investigação com sucesso na área estadual.
Conheci muitos promotores e procuradores comprometidos em persistir e superar dificuldades. Esse era um deles. Ele me passou uma lista contendo nomes de possíveis fantasmas para checagens preliminares.
A minha investigação começou no dia 15 de março de 2005 e trabalhei nela por um período curto, mas intenso. A partir dessa lista de nomes, cheguei a uma lista de “gafanhotos” que devoravam a folha de pagamento da Assembleia Legislativa do estado. O esquema criminoso consistia em inserir
aí o nome de funcionários fantasmas para que o salário fosse desviado integralmente para os criminosos. Intimei e ouvi muitos desses fantasmas, que declararam que jamais haviam trabalhado na Assembleia. Todos desconheciam os polpudos depósitos nas contas abertas em nome deles. Em geral eram pessoas simples, com um padrão de vida humilde, incompatível com os altos salários que supostamente recebiam. Para não deixar pistas sobre os beneficiários, após serem creditados nas contas bancárias criadas de forma fraudulenta em nome dos fantasmas, os salários costumavam ser
sacados em dinheiro em postos bancários na própria Assembleia.
Existiam situações em que uma única conta bancária recebia o salário de mais de 10 funcionários sem relação entre si, o que é absolutamente atípico, pois pessoas sem vínculo familiar próximo não costumam receber salário na mesma conta. As primeiras provas, colhidas em 2005 e 2006, apontavam que o esquema teria se desenvolvido entre 1998 e 2003. No segundo semestre de 2005, em razão das demandas de um caso gigantesco, o do Banco Banestado, deixei de atuar no da Assembleia, mas continuei acompanhando seus desdobramentos, pois os fatos eram graves e eu havia me dedicado muito a ele. Mais tarde seriam colhidas provas de que os crimes continuaram acontecendo pelo menos até 2007.
Para se ter uma dimensão do esquema, em 2008 essa investigação seria desmembrada em 74 casos de funcionários fantasmas que tiveram seus nomes usados em gabinetes de 63 deputados estaduais para desviar milhões dos cofres da Assembleia. Em apenas 13 casos, analisados aleatoriamente, o valor atualizado dos desvios chega à casa dos 4 milhões de reais.
Talvez você imagine um final feliz para esse caso, com os deputados líderes do esquema processados criminalmente, condenados e presos, assim como o dinheiro recuperado. No entanto, a verdade nua e crua é outra: o resultado foi a impunidade. Passados 19 anos dos primeiros crimes, ninguém foi punido até agora. Nem um real foi recuperado. Acompanhamos todos os casos e a perspectiva é de que prescrevam".
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