terça-feira, 1 de maio de 2018

"Lava Jato" de Vladimir Netto x A Série "O Mecanismo"

A série "O Mecanismo" de José Padilha, disponível no Netflix, é livremente baseada nos fatos da Operação Lavajato. Padilha usou como base o livro "Lava Jato" de Vladimir Netto. Para uma crítica do livro, veja aqui. Nesse post, abordamos as diferenças entre a realidade (que assumimos serem retratadas pelo livro) e a série de ficção de Padilha.


1. A tocaia para prender o doleiro Alberto Youssef.

Na série os policiais da Polícia Federativa liderados por China (o Japonês da Federal) ficam de tocaia na saída da casa do doleiro Ibrahim (Youssef), mas não percebem sua saída por estarem distraídos comendo. Na realidade os policiais "tinham voltado ao hotel para descansar porque teriam que acordar de madrugada para dar início à operação".

Na série o doleiro voa para Brasília. Na realidade o vôo foi para São Luis, Maranhão, onde Youssef foi entregar uma mala com 1,4 milhão de reais em espécie para membros do governo de Roseana Sarney, em troca de um pagamento parcelado de um precatório de cerca de 113 milhões de reais para a construtora UTC/Constran [1]. A prisão do doleiro foi feita pessoalmente pelo superintendente da PF no Maranhão, para afastar qualquer risco de vazamento. Ele era conhecido de Márcio Anselmo, o investigador que conduzia a operação de prisão.

No restante a série é fiel ao livro: de fato Ibrahim (Youssef) liga para a filha ao chegar em São Luis, denunciando sua localização. Uma ligação da PF acabou sendo transferida para seu quarto, que desconfiou que seria preso. Se desfez da mala de dinheiro (conforme gravação das câmaras do hotel) e ficou tranquilamente esperando a PF chegar.

Youssef em entrevista afirma que esperou ao invés de fugir porque "sempre prefiro enfrentar os problemas de cara limpa. Eu sabia que era Curitiba, sabia que era Sergio Moro, só podia ser”. Eu, particularmente, acredito que ele não sabia que a PF ainda não estava de tocaia na porta do hotel.

2. A primeira prisão do ex-diretor da Petrobrasil (Petrobras) João Pedro Rangel/JPR (Paulo Roberto Costa/PRC)

Na série JPR (PRC) aceita num impulso de presente uma Evoque, carro de luxo no valor de 250 mil reais. O carro é pago em cheque por Ibrahim (Youssef). JPR dirige de carro para o Rio. No livro o carro é entregue somente depois de ser blindado.

A nota fiscal é descoberta entre os e-mails de Ibrahim (Youssef) por Verena Cardoni (na realidade, foi por Márcio Anselmo). Estava descoberta a ligação que revelaria o maior escândalo da história do Brasil.

Em uma das cenas mais impactantes da série, uma grande quantidade de dinheiro vivo é descoberta numa segunda visita à casa de JPR (PRC), escondida em uma parede falsa. Na vida real a quantidade de dinheiro era um pouco menor (180 mil dólares, 10 mil euros e 750 mil reais) e foi descoberta já na primeira visita.

Na série a filha e o cunhado de JPR (PRC), graças à uma dupla falha da Polícia Federativa, conseguem retirar diversas malas de documentos do escritório do ex-diretor no período em que a PF deixa o escritório e se dirige à casa do ex-diretor para pegar a chave do escritório. O episódio é totalmente inverossímil. Mas, incrivelmente, é verdadeiro. Na vida real, contudo, conforme gravado pelo circuito interno do prédio, da retirada participaram duas filhas de PRC e seus maridos. Foram quadro viagens de elevador num espaço de cerda de uma hora, entre 8h16 e 9h14.

Na série a "sacada" de olhar as câmaras do prédio vem mais tarde. Na vida real, os policiais ao retornarem ao prédio descobriram a movimentação ao questionar o chefe de segurança do prédio.


Referências: 

[1] O destino da propina foi revelado por Youssef em sua colaboração premiada.

Nenhum comentário :

Postar um comentário