sexta-feira, 21 de junho de 2019

O Fim da Ingenuidade

A partir de que momento no Brasil deixou de ser possível, pelos menos aos políticos, alegarem ignorância sobre o funcionamento do "presidencialismo de coalizão" no Brasil?

Até quando é possível as pessoas se auto enganarem sobre tudo o que foi revelado, colocando suas próprias crenças e ideologias acima de todos esses fatos? Questão semelhante foi proposta por Milan Kundera em seu livro "A Insustentável Leveza do Ser", veja aqui.

Para responder essa questão mencionamos três momentos a partir dos quais ficou muito difícil ignorar toda essa realidade.

Em 06 de junho de 2005 veio a público a entrevista de Roberto Jefferson sobre o Mensalão que afirmava explicitamente que o PT pagava deputados para votarem de acordo com os interesses do partido:

"Folha - O que, em sua opinião, levou a essa situação?
Jefferson É mais barato pagar o exército mercenário do que dividir o poder. É mais fácil alugar um deputado do que discutir um projeto de governo. É por isso. Quem é pago não pensa."

Escute também um trecho da entrevista em áudio aqui.

Pouco mais tarde, com as revelações de Jefferson sobre Furnas, esse mecanismo foi exposto de forma ainda mais nua e crua, por um de seus maiores protagonistas: em setembro de 2016 era lançado o livro "Nervos de Aço", de Roberto Jefferson. Logo a seguir uma reportagem da Folha de São Paulo mencionava a principal revelação do livro: a de que o escândalo de Mensalão veio a tona em função de desentendimentos de Jefferson e Dirceu sobre a forma de divisão da propina de Furnas. A seguir alguns dos principais trechos do livro:

"Lula não gostou: 'Pô, como é que é? Mas por quê? Vocês já estão fazendo acordo?' "Já.' 'Que acordo é esse?', ele quis saber. 'Qual foi o acordo que vocês fizeram, porra?'.
Jefferson explicou o que era o acordo. Segundo ele, Dirceu defendia internamente a permanência de Dimas Toledo, que caíra em desgraça com Lula por transferir mais de R$ 1 milhão ao governo de Minas Gerais, de Aécio Neves, do PSDB.

"Jefferson explicou o que era o acordo. Segundo ele, Dirceu defendia internamente a permanência de Dimas Toledo, que caíra em desgraça com Lula por transferir mais de R$ 1 milhão ao governo de Minas Gerais, de Aécio Neves, do PSDB. Para não trocar Dimas por um petebista, Dirceu teria proposta a ele 'um acerto direto entre o PT e o PTB', pelo qual os partidos dividiriam 'a arrecadação mensal' de Furnas, 'por meio de Dimas Toledo'. O dinheiro seria arrecadado 'entre empresas interessadas em contratos com Furnas'."

Se havia alguma dúvida, o que dizer depois da delação do diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa que veio a tona em outubro de 2014? Veja alguns dos principais trechos de seu depoimento:

"Essas empresas tinham interesses em outros ministérios capitaneados por partidos. E, como falei, essas empresas são as mesmas que participam de várias outras obras, quer sejam ferrovias, rodovias, aeroportos, portos, usinas hidrelétricas, etc. etc.. saneamento básico, Minha Casa Minha Vida… Ou seja, todos os programas, nos ministérios, têm políticos de partidos. Se você cria um problema de um lado, pode-se criar problema do outro. No meu tempo lá, eu não lembro de nenhuma empresa ter deixado de pagar. Houve alguns atrasos das empresas do cartel, mas deixar de pagar nunca deixaram.”

"Então se ela deixa de contribuir com determinado partido naquele momento, isso ia refletir em outras obras, porque os partidos não iam olhar isso com muito bons olhos".

"Então esse seria um interesse mútuo, dos partidos, dos políticos e das empresas, porque não visava só a Petrobras, visava hidrovias, ferrovias, rodovias, hidrelétricas etc."

Será que algum político no Brasil pode alegar que desconhece todas essas histórias?

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